Não existem leis capazes de corrigir os preconceitos existentes nas cabeças dos indíviduos e provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. A educação ofereceria uma possibilidade aos indivíduos para questionar os mitos de superioridade branca e inferioridade negra neles introjetados pela cultura racista na qual foram socializados.
É por isso que a recuperação dessa memória é uma operação de "desintoxicação mental", sem a qual os negros não poderão erguer a cabeça para aprender no mesmo pé de igualdade que os brancos. A partir dessa recuperação, poderíamos facilmente substituir a expressão cartesiana "Penso, então sou e existo" pela expressão "Tenho a minha identidade, então sou e existo".
É nesse contexto que se coloca hoje a questão do multiculturalismo na educação.
A tese é a de que nossa identidade é parcialmente formada pelo reconhecimento por "outros"ou por sua ausência, ou ainda pela má percepção que os outros têm dela. Uma pessoa ou um grupo de pessoas podem sofrer um prejuízo ou uma deformação real se as pessoas ou as sociedades que os rodeiam lhes devolvem uma imagem limitada, depreciativa ou desprezível deles mesmos. O não reconhecimento ou o reconhecimento inadequado pode causar prezuízo ou uma deformação de opressão ao aprisionar alguns num modo de ser falso, deformado e reduzido.
O lugar essencial deste debate é o mundo da educação no sentido amplo, onde se multiplicam as demandas para modificar, alargar ou restringir o cânone dos autores acadêmicos, tendo como motivo que o cânone hoje em vigor é quase inteiramente composto de "machos brancos". Seria preciso, dizem, reservar um maior espaço às mulheres e aos povos de "raças" e culturas não-européias. A razão dessas propostas não é - pelo menos principalmente - que a todos os estudantes pudessem faltar alguma coisa importante pela exclusão de um sexo ou de certas raças ou de certas culturas, mas sim para evitar que as mulheres e os estudantes de outros grupos excluídos sofressem diretamente por omissão - uma imagem depreciatica de si mesmo - , porque toda criatividade e todo valor parecem ligados aos machos de origem européia. Ampliar e mudar o currículo escolar se torna então essencial, não apenas em nome de uma cultura mais vasta para todo o mundo, mas sim para dar reconhecimento legítimo àqueles que até então eram excluídos. A idéia fundamental que sustenta essas demandas é a de que o reconhecimento possa forjar a identidade. A luta pela liberdade e igualdade deve então passar por uma nova revisão dessas imagens. Estima-se que os cursos multiculturais ajudarão no processo de revisão.
Material de apoio: Textos de Kabengele Munanga.
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